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Questões relacionadas à flexibilidade
por mark caldeira

Darei início a uma série de artigos sobre conceitos e atualidades sobre o Treinamento da Capacidade de Flexibilidade. Nos artigos seguintes pretendo explorar os mecanismos fisiológicos, os princípios básicos, e os diferentes métodos do treinamento da flexibilidade.

Como forma introdutória a esta sessão, quero apenas despertar a atenção para alguns aspectos inerentes ao Treinamento Esportivo como um todo.

Dentro do Treinamento Esportivo existem diversos componentes relacionados à performance do atleta que ainda são pouco compreendidos e até mesmo controversos. E a flexibilidade é um deles.

A flexibilidade é tida como uma qualidade anatômica determinada pela estrutura das articulações e seus componente. Ao mesmo tempo, é considerada uma capacidade física conceituada genericamente como a aptidão para realizarmos movimentos com determi-nada amplitude. Técnicos, preparadores físicos, médicos e fisioterapeutas utilizam-se dos exercícios de alongamento para oferecer aos seus atletas um melhor rendimento, minimizar, prevenir e tratar lesões, bem como promover uma melhor recuperação pós-esforço. Estão certíssimos.

No entanto, muitos desses profissionais ainda acreditam que os jogadores devem possuir características de contorcionistas para evitar lesões e realizar com eficiência os movimentos exigidos pelo esporte.

Sem dúvida alguma, uma boa flexibilidade é fundamental para a realização eficiente de movimentos e gestos. De um modo geral, a adequada mobilidade articular permite uma ótima amplitude nos movimentos, minimizando as resistências musculares durante as ações motoras - o que promove uma diminuição da energia despendida para a execução daquela ação.

Atribui-se, ainda, à boa flexibilidade articular, adquirida por meio do treinamento sistemático, a diminuição do risco de lesão por " overuse” . Contudo, tão importante e necessário quanto uma boa flexibilidade, é o jogador ter uma ótima estabilidade articular, caso contrário o tenista ficará predisposto a lesões.

Por enquanto, não há parâmetros concretos e fidedignos que encerrem a questão de qual é o grau de flexibilidade mais recomendado para as diferentes estruturas articulares envolvidas na prática do tênis. O que temos é que cada modalidade esportiva possui exigências específicas nas diferentes capacidades bio-psico-motoras, inclusive na flexibilidade.

Exigir do atleta um grau elevado de flexibilidade pode lhe trazer sérias complicações, uma vez que uma mobilidade excessiva da articulação predispõe lesões nas estruturas ligamentares, ósseas e cartilaginosas que as compõem.

A flexibilidade deve ser vista como mais um dos componentes do rendimento esportivo enquadrados pelo Princípio da Especificidade, ou seja, a flexibilidade do tenista deve ser vista como o grau de mobilidade articular necessária e específica à exigência do tênis, e que seu excesso pode, sim, ser prejudicial ao rendimento do jogador, uma vez que o tênis é uma modalidade esportiva que exige mudanças bruscas de direção, aceleração, e movimentos balísticos dos membros inferiores e superiores como o saque, por exemplo. Flexibilidade além da conta pode ser tão fatal para o tenista quanto pouca flexibilidade para ginastas e bailarinas.

Para avaliarmos a flexibilidade necessária para o tenista, devemos conciliar o conceito de estabilidade, mobilidade, mostabilidade, amplitude, equilíbrio muscular, dentre outros, com as exigências reais e específicas às quais estão submetidos os atletas. Veremos mais sobre esses termos nos próximos artigos.

Um outro detalhe relevante para considerarmos é a relação e diferenciação entre flexibilidade estática e dinâmica. Inúmeros testes realizados em atletas que medem sua flexibilidade diagnosticam encurtamentos em diversas de suas cadeias musculares. No entanto quando colocado a realizar movimentos observa-se grande destreza e amplitude daquele atleta dito “encurtado”. A falha aí, muitas vezes, está nos testes e em seus protocolos. Outro aspecto envolvido é a realização de alongamentos estáticos como forma de avaliar e de se preparar para ações dinâmicas. Alongamento estático é muito bom para flexibilidade estática, enquanto que alongamentos dinâmicos são mais adequados para a flexibilidade dinâmica. Certamente que há um risco maior na realização dos exercícios de flexibilidade dinâmica se comparados aos exercícios de flexibilidade estática, mas cabe ao preparador físico a correta orientação e adequação de meios e métodos nas sessões de alongamentos.

O fato é que ainda não se provou a existência de uma ligação direta e cabal entre articulações flexíveis, performance e lesões. É possível encontrarmos atletas extremamente flexíveis, que além de não desempenharem com excelência o gesto esportivo são freqüentemente acometidos de lesões, bem como atletas “tensos” por deveras velozes e eficientes e que não sofrem de lesões em decorrência de sua aparente “rigidez muscular”.

O objetivo do treinamento de flexibilidade deve consistir no alongamento e fortalecimento das estruturas envolvidas naquele movimento, uma vez que se faz necessário adequar a força em posições de alongamento extremo, de forma a evitar lesões na estrutura da articulação.

Não é raro observarmos também um grande número de profissionais e jogadores confundirem aquecimento com alongamento. Na verdade, devemos fazer um bom aquecimento para depois alongarmos. O alongamento não faz parte do aquecimento. Ele vem depois do aquecimento. São momentos distintos da fase preparatória dentro de uma sessão de treino. Em minha opinião um eficiente aquecimento, por si só, já permite uma razoável condição de flexibilidade muscular, mas certamente que se aliarmos ao aquecimento a um conjunto de exercícios visando o incremento da flexibilidade, o ganho na mobilidade articular será maior.

Por hora ficamos por aqui. Iremos abordar esses e outros aspectos relacionados à flexibilidade de forma mais aprofundada e pontual, de forma a tratarmos inúmeras questões que envolvem essa variável tão importante e muitas vezes determinante no rendimento de nosso atleta sob a luz da ciência.

Abraço e bom jogo!

ReferÊncias:

------------------------------------------------------------------------.: Mark Caldeira, pós-graduado em treinamento esportivo e fisioliogia
do exercicio.
.: atua na área de formação esportiva de tenistas há 12 anos.

.: sócio da R&M Empreendimentos Esportivos.

.: contato: caldeira_mark@hotmail.com


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