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Normativas de carga
por mark caldeira

Sempre sou questionado sobre quais parâmetros eu utilizo para determinar o volume, a intensidade e a freqüência das cargas de treino e como eu as obtenho.

Esses três aspectos, juntamente com outros, compõem o conceito de normativas de carga, ou seja, são aspectos relacionados especificamente à modalidade esportiva que caracterizam o tipo e a qualidade do esforço à qual deverá se submeter o atleta para a melhoria das qualidades físico-motoras gerais e específicas à sua prática esportiva. Tais informações irão nortear o planejamento do treinamento, estabelecendo, por exemplo, e dentre outros, a quantidade de peso, a velocidade de execução, a distância percorrida, o número de séries, a duração e o número dos intervalos entre os estímulos e a prevalência dessas ou daquelas capacidades físicas.

Quando falamos das provas de atletismo, natação, ciclismo e outras, as normativas de carga são mais facilmente caracterizadas e observáveis, uma vez que os parâmetros dessas modalidades são objetivos, previsíveis e predeterminados. Por exemplo, na maratona o atleta deve percorrer exatos 42.195m, nem mais nem menos, o mais rápido possível. A mesma coisa acontece nas provas de natação sejam elas curtas ou longas. No triatlon os esforços nos quais é submetido o atleta são conhecidos anteriormente e fixadas pelas regras da modalidade e da competição. Além disso, os protocolos de testes, laboratoriais ou de campo, dessas modalidades e de tantos outras, são mais fidedignos à realidade do esporte, sendo, inclusive, seus resultados mais facilmente utilizados para a planificação dos esforços.

No tênis, e outras modalidades, isso já não ocorre assim. A duração do jogo ou dos pontos não é estabelecida pela regra ou pela competição. Uma partida, pode ser disputada em melhor de 3 ou 5 sets, podendo durar minutos ou horas. O número de pontos disputados pode variar independente do tempo decorrido de jogo, ou do número de sets. Podem ser disputados de 12 a 65 games, incluindo aí os tie-breaks. O tenista não sabe quanto tempo irá durar a disputa de cada ponto e muito menos quantas bolas irão ser trocadas a cada novo ponto. Em um mesmo torneio ele disputa partidas que lhe exigem de modo diferente o bom desempenho de diferentes valências físicas, como a velocidade e a resistência, por exemplo.

Todas essas particularidades do tênis torna-o uma modalidade tão difícil para jogadores quanto para os treinadores.

Contudo, temos que ter um ponto de partida, um referencial. E alguns desses dados são obtidos tanto pelo scout de jogo quanto pela regra. Informações do tipo: quantas bolas são em média rebatidas durante a disputa dos pontos; a duração dos pontos, dos games e dos intervalos; quanto tempo o jogador permanece em atividade e em repouso durante uma partida, são algumas das perguntas fundamentais que os treinadores, sejam eles técnicos ou preparadores físicos, devem ter.

No caso da maratona, das provas de velocidade nas pistas ou nas piscinas as informações relativas às cargas de treino estão mais próximas de serem matematicamente precisas, já no tênis a grande variabilidade de possibilidades torna essa precisão quase impossível. Mas, através do método de contagem obtido pelo scout de jogo, aliando-o às informações contidas nas regras e observando as características de jogo do tênis atual, teremos parâmetros relativamente próximos e fieis às necessidades de carga às quais deveremos submeter nosso atleta.

Vamos a uma análise prática

Regulamentarmente, em uma partida os jogadores possuem aproximadamente 90 segundos de intervalo entre as viradas, sendo que essas viradas acontecem ao final dos games ímpares. Entre o término de um ponto e o início do outro o jogador sacador tem aproximadamente 25 segundos para efetuar seu saque. E acontece também um pequeno intervalo regulamentar entre o primeiro e o segundo serviço. Há que se dizer também que em uma partida existem os momentos de intervalos passivos e intervalos ativos.

Normalmente procuro ter o seguinte principio: meu jogador tem que estar preparado para o pior. Ou seja, o fato de não sabermos antecipadamente, quanto tempo ele permanecerá na quadra, e nem como será a característica do jogo, tenho que imaginar que ele poderá ter que disputar 3 sets, em uma partida com melhor de 3 sets, e que cada set poderá ter que ser definido no tie-break, podendo durar tanto 30 minutos, 90 ou mais.

Em meus scouts procuro determinar com considerável precisão, elementos fundamentais para o meu planejamento. Vamos ilustrar uma situação hipotética, mas que acontece com certa freqüência. Trabalharemos com números médios, mas que não fogem muito da realidade.

Na situação descrita acima nosso jogador terá que estar pronto para disputar 36 games e 3 tie-breaks. Um jogo duríssimo (76-67-76). Se imaginarmos que cada game foi disputado em 6 pontos e os tie-breaks em 10, teremos um total de 246 pontos jogados. Imaginemos que em cada ponto houve uma média de 6 trocas de bolas, nesse caso nosso jogador rebateu algo como 1476 bolas. Estabelecendo-se uma média de 3 segundos para cada bola, obteremos um tempo médio de 4428 segundos de estímulo, algo como 73,8 minutos ou aproximadamente uma hora e quinze de bola em jogo. Além disso, se considerarmos que nesse jogo a média de deslocamento por bola foi de 5 metros , nosso jogador terá percorrido algo como 7.380 metros , em diferentes velocidades e constantes mudanças de direção.

É claro que são números hipotéticos e que a matemática do scout não pode ser uma ferramenta solitária, ela obrigatoriamente deve vim acompanhada da análise das peculiaridades do jogo. Temos aí que levar em consideração as duplas faltas, os aces, o estilo (saque-rede ou trocas de fundo), etc.

Contudo, essa somatória de dados obtidos tanto pelo regulamento, quanto pelos scouts, devem proporcionar aos treinadores (preparadores físicos e técnicos) uma base suficientemente esclarecedora para programarem de forma eficiente o seu trabalho, tanto físico quanto técnico/ tático.

Há diversas outras variáveis que devem ser levadas em consideração. Contudo a caracterização dos esforços médios ao longo de um determinado período devem ser atentamente analisados e direcionados à busca do bom desempenho atlético de nossos tenistas.

Cada qualidade físico-motora exige especificidade na aplicação das normativas de cargas. É vasta o número de informações na literatura sobre esse tema. Contudo, devemos estar atentos quanto às especificidades da nossa modalidade em questão, pois o desenvolvimento da força, da velocidade, da resistência, etc. por si só não nos garante o bom desempenho físico e/ou o êxito esportivo.

Cabe dessa forma ressaltar a grande importância do trabalho conjunto entre preparadores físicos e técnicos para a planificação dos treinamentos. O preparador físico deve estar ao lado do técnico para auxiliá-lo a conduzir a planificação do treinamento técnico/ tático de forma a torná-la a mais fiel possível à realidade do jogo, tornando esse momento do treino também parte principal do condicionamento físico de seu atleta.

Em um próximo artigo vamos tratar do planejamento do treinamento técnico/ tático como meio primordial do treinamento físico.

Bom treino!

------------------------------------------------------------------------.: Mark Caldeira, preparador físico e consultor esportivo

.: Atua com vários juvenis e profissionais de destaque, dentre eles Thiago Alves e Nanda Alves.

.: pós-graduado em treinamento esportivo e fisioliogia

.: sócio da R&M Empreendimentos Esportivos.

.: contato: mark@sportsrm.com.br


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