Planificação e Periodização - parte 1
por mark caldeira
A idéia de planificar o treinamento esportivo é tão antiga quanto o próprio esporte. Mesmo que de forma rudimentar, a planificação esportiva já existe desde os tempos da Grécia antiga. Planos de treinamento foram utilizados nos Jogos Olímpicos da Antiguidade. Flavius Philostratus (170-245 a. C.) , em seus ensaios, já fazia referência à utilização de algumas competições antes dos grandes jogos e a períodos de recuperação ao término das competições (GARRETT & KIRKENDALL, 2000; BOMPA, 2002) .
De lá pra cá planificar o treinamento esportivo tomou um significado tão importante que há o consenso de que a “estruturação” do treinamento esportivo é hoje uma das principais condições para a obtenção de resultados de alto nível em qualquer modalidade, sendo que uma adequada estruturação não só elevam as chances do excelente desempenho, como também pode assegurar a longevidade esportiva do atleta (FORTEZA e RIBAS, 1988; BERGER e MINOS, 1990) .
O desenvolvimento da planificação esportiva, veio progredindo e tornando-se mais sofisticado desde a antiguidade, culminando nos Jogos de 1936, quando treinadores alemães utilizaram planejamento de 4 anos. Mesmo considerados como os pioneiros KOTOV (1916); GORINEVSKI (1922); PINKALA (1930); GRANTYN (1939); OZOLIN (1949); LETUNOV (1950); atribui-se ao professor russo Lev Pavilovit Matveyev a paternidade de uma teoria científica, ainda discutida, sobre a organização do treinamento esportivo.
Matveyev publicou em 1965 um modelo de estruturação do treinamento, denominado de periodização. Para tanto, ele utilizou avaliações e análises estatísticas do comportamento em atletas de diversas modalidades, baseando-se nos ciclos de supercompensação do austríaco Hans Selye (Síndrome Geral de Adaptação) com modificações do bioquímico desportivo russo Yakolev ( MATVEYEV, 1999; GARRETT & KIRKENDALL, 2000; BOMPA, 2002; FORTEZA, 2000) .
Periodização e Planejamento ou Planificação são conceitos diferentes. Periodização é a estrutura temporal das variáveis intervenientes à performance, seqüenciando e temporalizando as atividades de forma sistemática e progressiva. O planejamento ou planificação é a atividade de integração global de todo o processo e suas variáveis para a obtenção do rendimento e que, posteriormente exigirá organização e programações mais detalhadas das tarefas direcionadas aos objetivos. Com isso entendemos que a periodização está contida em um planejamento (BADILLO & AYESTARÁN, 2001; GAMBETTA, 1991) .
A ciência ainda não conseguiu estabelecer uma periodização ótima e padrão para cada modalidade esportiva. Para enumerar alguns aspectos que aumentam tal dificuldade podemos citar: 1 – as características individuais (biológicas) de cada atleta, sobretudo nas capacidades fisiológicas e psíquicas; 2 – o acesso a treinamentos e profissionais capacitados desde o período de formação; 3 – diferenças regionais como o clima e; 4 – as diferentes concepções de treinamento dos treinadores (BOMPA, 2002; FORTEZA, 2001) . No entanto há vários modelos e concepções que nos servem como ponto de partida. Portanto, idealizar e elaborar uma periodização não é tarefa fácil, requer estudo, pesquisa e experiência.
Acho fundamental salientar que concordamos com FORTEZA, (2001 ) quando ele diz que a preparação do jogador é o resultado das concepções e pensamentos dos treinadores (técnicos e preparadores físicos), aos quais não devemos impor dogmas metodológicos para guiar a sua planificação e periodização, uma vez que quem conhece seu jogador, vivenciam suas limitações e possibilidades, são eles. Toda a responsabilidade de estruturar, conceber e dirigir o sistema de planificação e a aplicação das cargas de treinamento é inteiramente desses treinadores.
Contudo, a planificação do treinamento deve estar o mais distanciado possível da improvisação e do empirismo. Para tanto, técnicos e preparadores físicos devem buscar na ciência conceitos e linhas diretivas que fundamentem suas decisões e seus critérios, integrando seus conhecimentos em um sistema estruturado e organizado, de modo a permanecerem perto da ciência e da tecnologia atual.
De modo geral podemos definir a periodização esportiva como uma divisão temporal, estruturada e organizada do treinamento, no intuito de preparar o atleta, por meio do controle e ajuste das dinâmicas de cargas, a alcançar certas metas estabelecidas a fim de obter resultados em determinados momentos da temporada competitiva (FARLANE, 1986) .
São inúmeras as possibilidades de estruturação do treinamento, por exemplo:
Periodização do treinamento – MATVEYEV
Modelo de treinamento em bloco – VERKHOSHANSKI
Modelo integrador – BONDARCHUK
Modelo de cargas seletivas – GOMES
Estruturação Pendular – AROSIEV e KALININ ; FORTEZA e GABERNA
Esquema Estrutural de Treinamento de Altos Rendimentos – TSCHIENE e FORTEZA
Cada um desses modelos busca atender a demanda das diferentes modalidades esportivas e de seus atletas, mas para analisarmos qualquer estrutura atual do treinamento acho importante partirmos do modelo formulado por Matveyev, mesmo porque a grande maioria das novas tendências, nasce basicamente de uma crítica sobre esse modelo, no sentido de aperfeiçoá-lo ou de romper com ele.
A periodização de Matveyev é fundamentada na premissa de que o atleta tem que construir, manter e depois perder relativamente a forma esportiva no decorrer dos grandes ciclos anuais de treinamento, de modo a conceber uma relação temporal das fases esportivas com a estruturação dos períodos de treinamento, transferindo de forma positiva os graus de volumes de cargas gerais das primeiras fases do treinamento para uma maior especificidade das fases posteriores (MATVEYEV, 1977; FORTEZA E RANZOLA, 1988) .
Aqui a perda da forma esportiva não diz respeito à diminuição da qualidade de rendimento que o organismo obteve ao longo dos períodos anteriores. Essa organização dá-se, mesmo parecendo um paradoxo, com o sentido de manutenção e melhoramento da atividade habitual. Além disso, procura-se manter uma estruturação positiva no organismo, requerida pelas cargas anteriores. Nesse período ocorrem reestruturações mais prolongadas, bem como a acentuação dos processos metabólicos plásticos, ou seja de construção (MATVEYEV, 1997) .
Razões para a “perda” temporária da forma esportiva:
- O treinamento para o alto rendimento deve visar determinados resultados para determinados períodos. Para o próximo período fazem-se necessárias reestruturações (assimilar novas cargas, outras destrezas, melhorar hábitos...);
- Evitar o efeito cumulativo das cargas, um dia o organismo irá reagir defensivamente;
- Evitar a sobrecarga do sistema nervoso central. É uma tarefa muito difícil a de manter o equilíbrio dinâmico completo entre as diversas funções biológicas e os processo que constituem a base da forma esportiva.
Deste modo, o jogador não pode se encontrar sempre em forma. Ele deve adquiri-la, mantê-la temporariamente e depois renová-la, “perdendo-a” por algum tempo.
Estas três fases, segundo OZOLIN (1989), aquisição, manutenção e “perda” temporal da forma esportiva se transformaram, em um âmbito mais amplo, nos três grandes períodos do treinamento desportivo:
- O período preparatório: relativo à aquisição da forma esportiva.
- O período competitivo: relativo à manutenção da forma esportiva.
- O período transitório: responsável pela “perda” temporal da forma esportiva.
Dentro dessas fases Matveyev formulou os ciclos de treinamento desportivo, que constituem outra forma estrutural da planificação, unificando-se à estrutura periódica e estabelecendo um híbrido estrutural nas formas temporais e diferentes de organizar o treinamento.
Este caráter cíclico se define em três níveis fundamentais:
- Nível de macro estrutura, conhecidos como macrociclos que representa todo o treinamento de uma temporada, abrangendo dessa forma os períodos preparatórios, competitivo e transitório.
- Nível de meso estrutura, conhecidos como mesociclos que são ciclos menores que representam etapas dentro de um macrociclo, abrangendo os aspectos dominantes de um determinado conjunto de microciclos. São muito usados para representar cada um dos três grandes períodos de treinamento.
- Nível de micro estrutura, conhecidos como microciclos, que são as menores unidades de treinamento. Geralmente representam períodos de 7 a 12 dias, mas normalmente possuem divisões semanais.
Contudo, devido principalmente a evolução dos atletas, seus desempenhos, as atuais exigências competitivas, os densos calendários e a rigidez de alguns conceitos de MATVEYEV e de seus seguidores, várias são as críticas sobre seu método de periodização (FORTEZA, 2001) :
Inicialmente, todas as críticas são genéricas. Elas não visam atingir essa ou aquela modalidade. Elas na verdade buscam referir-se aos princípios e conceitos da periodização tradicional, sugerida por MATVEYEV, buscando uma reflexão de aspectos não aplicáveis aos dias de hoje.
De qualquer forma, independente das críticas e proposições, o mais importante que devemos compreender, neste momento é que:
Um planejamento antecipado e coerente fornece direção e sentido para o que deve ser realizado, quando e por que, fornecendo continuidade entre o presente e o futuro.
O planejamento esportivo deve ser visto como um processo metodologicamente criterioso e com relevante respaldo científico, de modo a auxiliar o tenista a otimizar seu potencial no decorrer do processo de formação e treinamento.
Não existe uma forma única de periodização e seus conceitos não devem ser rígidos, mas sim adaptáveis e específicos às necessidades do tênis e de cada tenista.
ReferÊncias:
Badillo, J.J.G. and Ayestarán, E.G. Fundamentos do treinamento de força: aplicação ao alto rendimento desportivo. 2001.
Bompa, T.O. Theory and methodology of training . 2002.
Forteza La Rosa, A. and Ranzola, Y.A. Bases Metodológicos del Entrenamiento Deportivo . 1988.
Forteza La Rosa, A. Entrenamiento Deportivo – Carga, estructura y planificación . 2001.
Gambetta, V. Concept and application of periodization. NSCAJ, 13, 5: 64-66, 1991.
Garrett, W.E. and Kirkendall, D.T. Exercise and Sport Science. (cap. 34). Periodization of Training . 2000.
Matveyev, L.P. Periodization del entreinamento deportivo . 1977.
Matveyev, L.P. Treino desportivo: metodologia e planejamento. 1997.
Mc. Farlane, B. Princípios básicos de la Periodizacion del entrenamiento deportivo. 1986.
Ozolin, N. Sistema Contemporaneo de entrenamiento, 1989.
------------------------------------------------------------------------ .: Mark Caldeira, preparador físico e consultor esportivo
.: Atua com vários juvenis e profissionais de destaque, dentre eles Thiago Alves e Nanda Alves.
.: pós-graduado em treinamento esportivo e fisioliogia
.: sócio da R&M Empreendimentos Esportivos. .: contato:
mark@sportsrm.com.br
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