Planificação e Periodização - parte 2
por mark caldeira
Este artigo tem por objetivo a reflexão acerca de algumas particularidades atuais e inerentes à planificação do treinamento no processo de formação e preparação do tenista que deseja obter o máximo de sua performance esportiva.
Antes contudo, quero reafirmar minha convicção de que um tenista competitivo é basicamente o resultado dos princípios conceptuais de seus treinadores (técnico e preparador físico). A responsabilidade de estruturar, conceber e dirigir o sistema de planificação e a aplicação das cargas de treinamento é inteiramente desses profissionais. Mas, suas decisões e seus critérios devem estar o mais distanciado possível da pura improvisação e empirismo. Para tanto lhes cabe conceitos e linhas diretivas da ciência e da tecnologia atual que embasem seu trabalho, no sentido de integrarem conhecimentos teóricos e práticos em um sistema estruturado e organizado.
O tênis vem, a cada ano, se assemelhando a modalidades esportivas, como a ginástica olímpica, a patinação, o trampolim acrobático, nas quais as exigências técnicas são elevadas e complexas, bem como o seu caráter competitivo. Uma característica dessas modalidades é o alcance elevado de rendimento esportivo muito antes da fase adulta. Vários fatores explicam isso, por exemplo, as novas tendências de treinamento, o nível de qualificação dos treinadores e as exigências biotipológicas para o desempenho.
Com isso, observamos altos níveis de performance em idades cada vez mais precoces nas arenas tenísticas. E esses níveis de competitividade continuaram aumentando, à medida que os métodos e processos de treinamento evoluem, bem como o nível de conhecimento dos treinadores. Não acredito que teremos um campeão de Grand Slam, ou um TOP TEN com 12-13 anos, como vemos na ginástica olímpica ou no trampolim acrobático. Mas é cada vez mais comum vermos adolescentes com 15-16 anos vencendo torneios profissionais e conquistando posições significativas no ranking da ATP. Os raros exemplos, como Gasquet, Nadal, Roddick, Baghdatis, Monfils, Berdych, que aos vinte anos de idade conseguiram atingir posições fantásticas no ranking ATP, são cada vez mais freqüentes, sendo suas performances e conquistas cada vez mais espetaculares.
Não caberá aqui discutirmos os riscos que uma performance esportiva elevada precocemente pode trazer ao desenvolvimento psicofísico das crianças e adolescente. Por enquanto, devemos saber que existe, que podemos e devemos minimizá-los, mesmo porque não conseguiremos retroagir na evolução esportiva. Isso por si só é tema de um outro artigo!
Diante da realidade esportiva, e das atuais exigências aos tenistas, a formação e o treinamento esportivo requerem, cada vez mais, extrema coordenação entre suas diferentes variáveis com os níveis de maturação e desenvolvimento do jogador.
Essa abordagem, embora desejável para tenistas de elite, é especialmente importante para crianças e adolescentes. Acredito que somente através de uma planificação elaborada é que podemos garantir o direcionamento coordenado das grandes questões relacionadas ao processo de formação e treinamento dos tenistas, oferecendo-lhes, desse modo, condições de atingir níveis ótimos de rendimento dentro de suas potencialidades, preservando, ao máximo, o seu bem estar geral. Por isso, concordamos com BOMPA (2002) quando ele sugere que um sistema de formação estruturalmente planificado e fundamentado, deve ser obrigatoriamente iniciado o mais cedo possível .
Quando falamos em sistema de formação estruturalmente planificado, e que este deve ser aplicado o mais cedo possível, não queremos dizer que a criança deva ser vista como um adulto em miniatura, mas sim que ela deve ser inserida o quanto antes em um projeto de desenvolvimento esportivo que tenha fases coerentes com seu nível de maturidade biológica, psíquica e cognitiva, e que lhes ofereça condições suficientes para seu desenvolvimento físico, motor, cognitivo e psíquico. Isso se estivermos pensando em multiplicar nossas chances de termos tenistas de sucesso no futuro.
E não há como desenvolver um projeto de desenvolvimento esportivo sem controle e planejamento, haja vista que a habilidade e o desempenho do atleta sofrem modificações constantes, seja do ponto de vista fisiológico, psíquico ou motor.
Assim, o bom treinador deve estar atento a essas modificações, conflitando-as com os níveis de rendimento que devem e podem ser atingidos, e partir disso equacionar o programa de formação e treinamento na direção dos objetivos.
Desse modo, planejar deve ser visto como um ato contínuo e ininterrupto, mesmo porque a dinâmica atual do tênis de competição e sua política de ascensão nos diferentes rankings (estaduais, nacionais ou internacionais) ainda exigem do jogador, desde as categorias mais baixas, a participação em vários torneios ao longo do ano, não lhe permitindo, freqüentemente, os devidos intervalos para recuperação e regeneração.
Planificar o treinamento é a arte de empregar a ciência na estruturação das fases e períodos no decorrer do processo de formação do atleta. Para tanto os treinadores devem possuir conhecimentos das diferentes disciplinas da Ciência do Esporte, uma vez que o plano de treinamento é reflexo da aplicação metodológica e sistemática de conceitos, princípios e leis de diferentes ciências que compõem a área da Educação Física (FORTEZA, 2000; BOMPA, 2002, WEINECK, 1999).
Existem certas normas que são a base do processo de formação de treinamento, e os treinadores ao desenvolver seu planejamento necessita estar atento a elas.
Ao planificar (e veremos que também para periodizar), devemos nos basear no comportamento do atleta em testes e competições, analisando ainda seu desempenho em diversos outros índices de performance. Além disso, os programas de treinamento devem considerar o potencial do atleta, seus objetivos e metas, o calendário de competição, as instalações e materiais de treino, sua disponibilidade para treinos e competições. Do mesmo modo o planejamento deve ser simples e flexível, podendo ser modificado conforme o desempenho, a assimilação das cargas, e eventuais contratempos aos quais o atleta pode ser submetido, como doenças, problemas pessoais, cancelamento de torneios, recurso financeiro, etc.
Após estabelecer o nível de desempenho e/ou desenvolvimento futuro, o treinador elabora os métodos e meios apropriados para a execução do treinamento no sentido de alcançar suas metas, sendo que sua estruturação tem um caráter temporal, que considera um início e um fim do processo de preparação e competições, estando determinado fundamentalmente:
Pelo calendário competitivo que considera o número de competições, a freqüência, o caráter e a dispersão ou concentração das competições em um período de tempo dado.
Pela organização e dosagem das cargas, que considera sua diluição ou concentração, de acordo com a concepção que se adote no caráter da carga, bem como sua proporcionalidade entre cargas gerais e especiais.
Pelas direções de treinamento, objetos de preparação que considera as direções determinantes do rendimento (DDR) e as direções condicionantes do rendimento (DCR).
Os principais aspectos da planificação para SANCHO, J. A . ( 1997 ) citado por FORTEZA (2001) são os seguintes:
A planificação do treinamento tem que seguir um processo, não pode ser na sorte.
Os objetos devem ser estabelecidos e determinados claramente, de acordo com os problemas e necessidades dos atletas. Caso contrário corre-se o risco de planificar um processo encaminhado para algo diferente do que realmente se precisa no primeiro caso e sem saber para que no segundo.
As metas, os objetos e em última instância os fins devem ser alcançáveis, realistas (o que não exclui uma certa ousadia e um certo nível de risco).
A planificação é um processo seqüencial e logicamente ordenado, não se desenvolve tudo, simultâneo e nem caprichosamente.
A planificação está imersa no meio ambiente, não podendo nem desprezar nem trabalhar a margem do mesmo.
Toda planificação pressupõe uma troca efetiva com respeito à situação existente de como se começa.
Planifica-se para a execução. Não se pode falar de verdadeira planificação se as idéias para o trabalho são exclusivamente teóricas sem intenção de por em prática, deve-se portanto existir vontade e condições de torná-la efetiva.
Seguiremos estudando.
Abraço.
ReferÊncias:
Badillo, J.J.G. and Ayestarán, E.G. Fundamentos do treinamento de força: aplicação ao alto rendimento desportivo. 2001.
Bompa, T.O. Theory and methodology of training . 2002.
Forteza La Rosa, A. and Ranzola, Y.A. Bases Metodológicos del Entrenamiento Deportivo . 1988.
Forteza La Rosa, A. Entrenamiento Deportivo – Carga, estructura y planificación . 2001.
Gambetta, V. Concept and application of periodization. NSCAJ, 13, 5: 64-66, 1991.
Garrett, W.E. and Kirkendall, D.T. Exercise and Sport Science. (cap. 34). Periodization of Training . 2000.
Matveyev, L.P. Periodization del entreinamento deportivo . 1977.
Matveyev, L.P. Treino desportivo: metodologia e planejamento. 1997.
Mc. Farlane, B. Princípios básicos de la Periodizacion del entrenamiento deportivo. 1986.
Ozolin, N. Sistema Contemporaneo de entrenamiento, 1989.
------------------------------------------------------------------------ .: Mark Caldeira, preparador físico e consultor esportivo
.: Atua com vários juvenis e profissionais de destaque, dentre eles Thiago Alves e Nanda Alves.
.: pós-graduado em treinamento esportivo e fisioliogia
.: sócio da R&M Empreendimentos Esportivos. .: contato:
mark@sportsrm.com.br
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